Mais de 80% dos Moçambicanos Não Conseguem Pagar uma Alimentação Saudável
Mais de 80% dos moçambicanos não tinham condições financeiras para suportar o custo de uma alimentação saudável em 2024, colocando o País entre os nove Estados africanos com maiores dificuldades de acesso económico a uma dieta adequada.
Os dados constam do Relatório Regional sobre Segurança Alimentar e Nutricional em África 2025, que analisa o custo dos alimentos e a capacidade das famílias para manter uma alimentação equilibrada e diversificada.
Moçambique aparece neste grupo ao lado do Burundi, Malawi, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Madagáscar, Níger, Sudão do Sul e Zâmbia. Nestes países, mais de oito em cada dez pessoas não conseguem pagar regularmente uma dieta considerada saudável.
O indicador não significa necessariamente que toda esta população esteja sem alimentos. Mostra, porém, que a maioria das famílias não possui rendimento suficiente para comprar com regularidade produtos variados e nutritivos, como frutas, legumes, carne, peixe, ovos, leite e outros alimentos importantes para uma alimentação equilibrada.
Na prática, quando os rendimentos são baixos e os preços dos alimentos aumentam, muitas famílias são obrigadas a concentrar as suas despesas em produtos mais baratos e que ajudam a reduzir a fome, mesmo quando estes não fornecem todos os nutrientes necessários.
A situação revela a forte pressão do custo de vida sobre os agregados familiares moçambicanos. O aumento dos preços dos alimentos, dos transportes e de outros bens essenciais reduz ainda mais a capacidade das famílias de manter uma dieta saudável.
O relatório alerta que esta realidade compromete os esforços de combate à insegurança alimentar e à má nutrição, sobretudo entre crianças, famílias de baixa renda e comunidades mais vulneráveis.
A dificuldade de acesso a alimentos saudáveis também pode ter consequências na saúde, no rendimento escolar e na produtividade dos trabalhadores. Uma alimentação pouco diversificada aumenta o risco de deficiências nutricionais e de outros problemas de saúde.
A realidade de Moçambique contrasta com a registada em alguns países do Norte de África. Na Tunísia, apenas 8,2% da população não consegue pagar uma dieta saudável, enquanto em Marrocos a proporção é de 13,6%.
O relatório mostra igualmente que alguns países africanos conseguiram melhorar o acesso económico à alimentação entre 2019 e 2024. No total, 14 países reduziram a percentagem de pessoas sem condições para pagar uma dieta saudável.
O Benim apresentou o maior progresso no período, com uma redução de 9,9 pontos percentuais. Também foram registadas melhorias no Botswana, Comores, República Democrática do Congo, Djibuti, Eswatini, Etiópia, Libéria, Namíbia, Senegal, Sudão, Quénia, Tanzânia e Uganda.
Para Moçambique, a melhoria deste indicador dependerá não apenas do aumento da produção agrícola, mas também do crescimento do rendimento das famílias e da redução dos custos que influenciam o preço final dos alimentos.
A criação de emprego, o aumento da produtividade agrícola, a melhoria das estradas, dos sistemas de armazenamento e da distribuição podem contribuir para reduzir os preços e facilitar o acesso das famílias a produtos mais variados.
Os custos de transporte, as perdas após a colheita, a dependência de alguns produtos importados e os efeitos de secas, cheias e ciclones também influenciam a disponibilidade e o preço dos alimentos no mercado.
O desafio, por isso, não é apenas produzir mais comida, mas garantir que os alimentos cheguem aos mercados a preços que as famílias consigam pagar.
Os dados mostram que a segurança alimentar está directamente ligada ao poder de compra. Enquanto mais de 80% dos moçambicanos não conseguirem pagar uma alimentação saudável, a maioria das famílias continuará a escolher os alimentos com base no preço e não no seu valor nutricional.
Melhorar esta situação exigirá políticas que combinem produção agrícola, criação de emprego, controlo do custo de vida, melhoria dos transportes e protecção das famílias mais vulneráveis.
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